Literatura
e comida
* Por: Tatiana Fadel
Eu sei que nem só de pão vive o
homem. Também já me disseram incontáveis
vezes que os livros são o pão do espírito.
E é claro que entendo que o pão de que essas
máximas repetidas à exaustão falam
não é exatamente o pão que a cada dia
mastigo junto ao café: são referências
à necessidade humana de alimentar a alma. Mas queria
agora fazer uma espécie de inversão dessa
metáfora, e falar da relação visceral
que encontro entre literatura e comida.
A cozinha pode ser cenário para boas histórias,
algumas inclusive transformadas em filmes bastante saborosos.
A Festa de Babette, por exemplo, é originalmente
um romance da escritora dinamarquesa Isak Dinesen. Assim
como o filme, o livro provoca reações imediatas
de nossas glândulas salivares: a comida ricamente
servida numa gélida aldeia da Dinamarca pela sofisticada
francesa Babette enche os olhos , o estômago e o espírito
dos amargos comensais com a mais divina alegria. (creio
que não é à toa que quase todos os
ritos religiosos, de qualquer cultura, trazem a comida como
metáfora da divindade: do pão e vinho dos
cristãos às exóticas comidas dos orixás
africanos, o que alimenta a alma toma forma na cozinha.)
Eu me recordo de um livro favorito da infância, O
Jovem Fazendeiro, que descrevia almoços e jantares
fartos de uma família de pioneiros norte-americanos.
Lembro com que gula e avidez relia as páginas que
falavam de coisas que nunca chegaria a provar: picles de
casca de melancia, açúcar-cande, tortas de
abóbora, e mil sabores que podia apenas imaginar.
Mais tarde, descobri que a literatura, além de encher
minha cabeça de idéias e interpretações
do universo, era habilmente capaz de me abrir o apetite.
Carneiro, por exemplo, nunca me apetecera, até que
eu lesse a Ilíada. Pronto: terminada a leitura, lá
estava eu, enlouquecida por aquele animalzinho tostado na
brasa, tal qual Zeus pedia em sacrifício. Se era
o que os heróis gregos comiam, era o que meu estômago
desejava.
Recentemente, lendo o clássico A cidade e as Serras,
de Eça de Queirós, mal pude acreditar nas
fantasias gastronômicas que povoaram minha mente quando
o aristocrata Jacinto degusta uma sequência de pratos
portugueses que o tiram de um inapetência entediada
de anos e anos.
Eis a questão central que se coloca, então:
se, quando tratam de comida, as palavras são capazes
de provocar essas reações orgânicas,
físicas, intensas e deliciosas, será que também
não são capazes de provocar outras transformações,
de outra ordem, quando tratam de outros temas? Este seria
então o pão do espírito as palavras
que provocam amor quando falam de amor.
Palavras são mágicas e constroem o mundo,
além de meramente representá-lo. Não
estava com fome antes de ler sobre comida: os livros construíram
a minha fome. Seriam então eles capazes de construir
a minha paz, o meu delírio, o meu amor? Se assim
for o que desejo de verdade mais que nunca,
cuidemos da qualidade do pão do nosso espírito:
que ele não esteja jamais embolorado.
Tatiana Fadel graduada em Letras pela Unicamp,
professora de Redação e Literatura do Sistema
Anglo de Ensino e Anglo Castelo