As
Rodovias
Por: Bruno Peron Loureiro
Existe um ditado que diz que alguém tem que
pagar a conta. Por algum momento, acreditamos que
o governo banca nossos excessos, paga o salário de
pessoas que querem trabalhar pouco e se responsabiliza por
crises que aparecem de ultramar; por outro, chegamos a conclusões
precipitadas de que o governo não tem que se meter,
assim que diminua os impostos e cada indivíduo financie
suas idiossincrasias. O jogo tem rebolado entre oito e oitenta,
ou seja, extremos que não se bicam.
O episódio de hoje parece continuação
de uma história mal contada é sobre
a sensação de que estamos pagando a conta
de outro quando se enfrenta o número crescente de
cabines de pedágio nas rodovias brasileiras. Em cada
uma que aparece, recebemos uma punhalada que nos obriga
a aceitar e lamentar ao mesmo tempo. As rodovias também
entraram para a dança das privatizações
que nossos governantes estimularam na década de 90,
entregando até o que dava lucro para a iniciativa
privada. Mal maior poucas vezes se cometeu.
Explico por quê. No estado de São Paulo,
onde se rifam rodovias estaduais e federais como se fossem
picolés, elas são mais preservadas e seguras
de modo geral que em outros estados. Porém, em várias
concessões, houve pouco investimento dos atuais empresários
do asfalto sobre o que foi entregue pelo governo, as tarifas
sobem desproporcionalmente ao aumento de salários,
e os lucros que vêm depois da recuperação
dos investimentos não retornam em serviço
público senão no bolso de quem sabe quem.
Sei que tem gente que não se importa com o valor
dos pedágios, enquanto outros deixam de viajar por
causa disso. Não quero relativizar o que as tarifas
representam para cada classe social ou consumidor senão
escarafunchar medidas que visam ao interesse de todos. A
impressão que tenho quando vejo essa expansão
da quantidade de pedágios é a de que nos estão
ilhando em vez de integrar as cidades, as regiões
e os estados porque a melhora da qualidade das rodovias
não significa que o brasileiro viaje mais.
Cobro maior transparência dessas transações
econômicas realizadas pelo governo com as concessionárias
de serviços rodoviários. Este setor não
tem como obedecer às leis de livre mercado porque
acaba por coibir a existência de vias alternativas,
como é o caso da Anchieta-Imigrantes, que interliga
a cidade de São Paulo com o litoral paulista. Não
restou saída para os que quiserem pegar a Anchieta
como acesso público, pois esta foi vendida no mesmo
prato.
É lamentável o estado em que se encontram
trechos de rodovias estaduais e federais, que transformam
a viagem numa aventura. É por isso que muitos preferem
pagar pedágios para trafegar em rodovias conservadas
e seguras. Nestas condições de emergência
e incapacidade de ubiquidade governamental, sugiro que se
instaure o mecanismo de empresas públicas que definam
os preços de pedágio conforme a relação
entre fluxo de veículos e gastos com manutenção
da pista.
Assim pagaríamos o que vale. E com critérios
de transparência.
Bruno Peron Loureiro é analista de desenvolvimento
e relações internacionais.