|
Sobre
a beleza
Aberto sobre a minha mesa de trabalho, um
dos jornais do dia, no caderno de cultura. Um anúncio,
bem produzido, chama-me a atenção com a intrigante
pergunta: Você se acha a pessoa mais bonita do mundo?
Por alguns instantes, fiquei ali pensando no que escreveria,
se resolvesse participar (não participei!) daquela
reportagem, segundo o tal anúncio, prevista para
os próximos dias. Bem, na verdade, eu já tinha
a minha resposta na ponta da língua.
Um dia, eu me olhei no espelho lá de casa, e vi que
já não era mais o mesmo: as primeiras rugas,
o branco se instalando nas têmporas, os sentidos me
traindo a cada passo. Tudo denunciava que os anos, agora,
passavam mais rápidos e cruéis, sem a mínima
chance de serem contidos.
Mas, eu ainda estava li, com todos os meus planos de vida,
as minhas esperanças, os horizontes abertos.
Então, pensei: não o corpo, é a alma
que deve nortear por esses caminhos, superar os obstáculos,
ir de encontro ao destino. E eu a tinha comigo intacta,
límpida, tão bonita como sempre, e me sentia,
assim, exatamente como ela.
A matéria é efêmera, vai com o vento,
vira pó. O tempo é mesmo um fazedor de monstros,
embora muita gente, mas muita gente mesmo, não pense
exatamente assim.
Você já parou para pensar que o culto à
beleza está arraigado em nossas vidas, já
desde quando temos alguns poucos anos de vida, e, depois,
ainda nos persegue ao longo de toda a vida? Quem não
ouviu - ou contou - alguma vez a história da Branca
de Neve e os Sete Anões: a madrasta, rainha má,
perguntando ao espelho mágico "quem é
a mulher mais bela do mundo?", e este respondendo "Branca
de Neve é a mais bonita do reino!".
E as apresentações infantis do tipo "boneca
viva", incentivadas especialmente pelas mamães
corujas aí por todo o interior do país? E
o eterno concurso de Miss Brasil, que teve seu apogeu nas
décadas de 50 e 60, ainda nos tempos de O Cruzeiro
e da TV Tupi?
Hoje, é só a gente ligar a televisão,
dar uma olhada nos jornais, nas revistas da semana, e ali
estão mil indicações de como a mulher
se tornar ainda mais bonita, mais sensual, mais tudo...
Menos gorda. Regimes, remédios, malhações,
aparelhos de ginástica de tamanhos e especificações
os mais variados e esdrúxulos. Desfiles de modas,
vendendo roupas elegantíssimas... Mas, só
nas meninas de treze e catorze anos, que dançam pelas
passarelas, ridículos nas madames endinheiradas,
quando a usá-las dias depois.
É a escravidão da beleza, trunfo valioso,
que vai se esvaindo, dia a dia, aos passar inexorável
dos dias, dos meses, dos anos de nossa curta passagem por
esse mundo de Deus.
Ainda sobre a beleza e seus vários estágios,
conta um amigo que, durante uma fantástica viagem
de navio pelo Atlântico, duas respeitáveis
senhoras, mãe e filha - uma viúva e outra
na flor de seus dezoito anos - conheceram um guapo e rico
jovem casadoiro, que, a partir desse encontro, não
as deixava mais, estava sempre presente a cada momento daquela
elegante excursão turística pelo mar.
A mãe, cinqüentana, com as marcas da vida estampadas
no rosto, os cabelos prateando, já fazia lá
seus planos para o futuro: "Hum! Moço rico,
esbelto, um bom partido certamente para a nossa menina com
tudo em cima. São favas contadas, a solução
para tudo, enfim".
E não é que no último dia da viagem,
o rapaz, discretamente, deixou com as novas amigas um pequeno
envelope - perfumado -, que, segundo ele, era para ser aberto
uma semana depois, quando já estaria de volta de
uma outra viagem, essa de negócios pela Europa. Uma
proposta de noivado, talvez até casamento, certamente,
concluía aquela mãe esperançosa.
No lugar certo, no dia certo, a cartinha foi aberta, e veio
a resposta: era mesmo uma proposta, uma surpreendente declaração
de amor, não para a belezinha de dezoito anos, mas
para aquela linda mulher com as marcas da idade e os cabelos
encanecidos, por quem ele se dizia perdidamente apaixonado.
Pode crer no fim dessa história: casaram-se e foram
felizes para sempre. Para o jovem rapaz, essa era, realmente,
"a pessoa mais bonita do mundo", sem procurar
razões como pedia o anúncio do jornal.
Gustavo Osmar Mazzola
Jornalista
mazzola@sigmanet.com.br
|
|
|
Direitos
reservados ©Grupo Jornal do Castelo
|