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A aventura da TV Princesa

 

Faça comigo, caro leitor, uma viagem de vinte e poucos anos ao passado. Muito bem, estamos, agora, bem em frente ao número 155 da rua Prof. Jorge Hennings, em Campinas (SP), onde, há algumas semanas, instalou-se uma empresa de rotinas incomuns, alvo até de certa curiosidade da vizinhança.
Entramos, sem dificuldade, pela sua portaria, acesso direto a um longo corredor. Vamos até o fim, viramos à direita, e temos à nossa frente uma pesada porta de duas folhas, bem larga, com laterais emborrachadas. Passamos por ela e entramos num salão refrigerado de pé direito alto.
Fim do mistério: estamos dentro do estúdio (o único) da TV Princesa D'Oeste, uma pequena e surpreendente estação de televisão, que, naquele começo de 1985, invadia os horários da TV Record e transmitia, para toda a região, uma programação "feita em casa", ao vivo, que variava de produções dirigidas ao público feminino, a breves entradas jornalísticas, especialmente, sobre os acontecimentos esportivos na cidade. Mas, também, tinha espaços para programas sertanejos, turísticos, religiosos e até experiências mais ousadas, como um programa dedicado ao "carro", com testes, entrevistas e curiosidades do mundo automobilístico.
Que TV era essa, afinal? Era o simpático Canal 6 de Campinas, uma interessante experiência televisiva para a época, por onde desfilavam, diariamente, nomes, que mais tarde, seriam consagrados pela mídia nacional, como Valéria Monteiro, Leonor Corrêa e Aldine Müller. O famoso apresentador das Emissoras Unidas, Blota Junior, incluía-se nesse time, responsável que era por um quinhão das cotas acionárias da TV, nessa primeira fase de operações. Dr. Blota, como era tratado por todos ali, dava expediente quase diário na Princesa, coordenando e orientando os trabalhos de implantação da nova programação que, ao poucos, ia sendo montada.
A TV Princesa, com galhardia, sobrevivia a dificuldades de toda a sorte, beirando, em alguns momentos, lances de puro surrealismo: com apenas duas câmeras, uma velha Veraneio para as "externas", uma ilha de edição de poucos recursos e uma central técnica, que terminava onde começava sua torre de transmissão, ali se procediam a malabarismos inacreditáveis. Eram desafios diários para os experientes diretores de TV - que a ela se dedicavam de corpo e alma -, Gaetano Gherardi e Salvador Tredice (o Dodô, da velha Record), trazendo para o Canal 6 sua experiência de vários anos de "janela" na televisão brasileira.
Em meados da década de 80, quando o VT tinha sua utilização como base da programação nas grandes emissoras de São Paulo e do Rio, a Princesa fazia quase tudo ao vivo mesmo, como se, de repente, quisesse retornar, heroicamente, ao começo da TV em preto e branco dos anos 50.
Histórias não faltavam, enriquecendo o folclore local: eram comuns comentários brincalhões, como, por exemplo, de que, numa tarde, por descuido da técnica, entraram no ar cenas de um vídeo "pornô", esquecidas no início de uma matéria gravada para o noticiário jornalístico da noite anterior. Também, comentava-se, jocosamente, que, muitas vezes, programas preparados e editados durante vários dias, num apertar de botões, viam-se apagados, dando lugar a algum comentário esportivo da casa, e que, durante a transmissão do programa feminino, afinando-se bem os ouvidos, conseguia-se ouvir, claramente, o latido de um cãozinho da vizinhança, que desafiava o bloqueio acústico do estúdio.
Certa vez, durante o programa sobre automóveis, um piloto de provas mostrava um novo tanque de combustível de sua máquina, quando a tampa da peça se soltou, esguichando um líquido viscoso em todos que estavam por perto. O diretor de TV mandou que o papo seguisse, porque "o que acontecia estava fora do campo visual da câmera". A entrevista terminou com entrevistado e entrevistador literalmente molhados, sem que ninguém em casa tivesse percebido qualquer anormalidade.
A aventura da TV Princesa D`Oeste, em Campinas, sobreviveu até 1980, quando foram rompidos os vínculos com a TV Record, passando, então, a transmitir a programação da TV Manchete, e mudando seu nome para TV Metrópole. Mais tarde, virou TV Diário, já integrada ao Grupo Diário do Povo. Em 1990, mudou novamente de nome: TV Brasil, a atual TVB, iniciando a retransmissão da grade nacional do SBT e uma estruturada e bem profissional programação local de jornalismo.
Mas, ficaram as boas lembranças do simpaticíssimo Canal 6 de Campinas. Apesar dos contratempos, dos poucos recursos, das dificuldades de toda sorte, das brincadeiras que o seu pessoal precisava agüentar, para muitos foi uma verdadeira escola de televisão, um laboratório vivo, onde se podia viver na prática o que era aprendido na teoria. Com certeza, acabou norteando a vida profissional de muita gente famosa que, hoje, está por aí.

Gustavo Osmar Mazzola
Jornalista
mazzola@sigmanet.com.br

 

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