Brilhante,
em preto e branco
Ah! Brilhava, mesmo em preto e branco. Alguém
aí se lembra dela,
quando se mostrava ainda misteriosa para alguns... e a grande
novidade
em diversões para muitos? Toda ao vivo, diante de seus
fiéis admiradores,
com equipamentos grandes e caros, manuseados só por especialistas?
E, em
casa, na posição 3 encontrada na base do “toque-toque”
num grande botão
embaixo, à direita, com caras e bocas, às vezes,
achatadas ou espichadas,
subindo e descendo à nossa frente, e a gente se apressando
em acertar
o “horizontal” para não correr o risco de
perder o melhor do programa?
Não tire conclusões precipitadas: estamos nos
referindo à TV Tupi de São
Paulo, simplória, improvisadora, sobre a qual faz um
bem danado recordar
alguns de seus momentos peculiares e de intensa genialidade.
Todas as quintas feiras, às oito da noite, por exemplo,
lá estava ela no ar
com o seu “Os melhores da Semana”, apresentado por
Heitor de Andrade
(de smoking) e Márcia Real (de longo), numa postura formal
digna de
entrega de Oscar, em Los Angeles. Era, na verdade, o Oscar paulistano,
uma estatueta (um indiozinho?) ofertada aos artistas que mais
haviam se
destacado durante os sete dias da semana.
O interessante era que, sem o vídeotape de hoje, os ganhadores
precisavam
ir até seus estúdios para receberem o seu Oscar,
no Sumaré, mesmo que
pertencessem ao cast de uma das duas outras emissoras concorrentes,
a
Paulista e Record: representavam um trecho que motivara a homenagem
ali
mesmo, e recebiam das mãos dos apresentadores sua estatueta.
E o Teatro da Juventude, o ponto alto da programação
nas manhãs de
domingo. Produzindo e apresentado pelo médico Júlio
Gouveia, com
histórias infantis escritas ou adaptadas por sua mulher
Tatiana Belinky,
era, em geral, estrelado pelos meninos David José e Adriano
Stuart (filho
de Walter Stuart), às vezes, com a participação
de Edi Cerri e Lúcia
Lambertini.
Uma característica, que ficou marcada no teatrinho da
Tupi era a abertura
e o seu encerramento: sempre feitos pelo próprio Júlio,
à frente de uma
biblioteca cenográfica, de onde ele tirava e devolvia
um grosso livro de
histórias, terminando com a sua frase famosa: “E
assim, acabou a história...
entrou por uma porta, saiu pela outra, quer quiser que conte
outra”.
Mas, um dos momentos mais criativos dessa TV, ousado para a
época,
foi, sem dúvida, sua experiência em ficção
científica que, com todas as
dificuldades técnicas da época, empolgou toda
São Paulo: a visita de
extraterrenos ao nosso planeta.
Durante várias semanas, no começo
da noite, o telejornal “Mappin
Movietone” era surpreendido por uma misteriosa interferência,
que trocava
as imagens do “âncora” Roberto Corte Real
por sinais indecifráveis.
Com o passar dos dias, esses sinais transformaram-se num rosto
imóvel
e mal definido, acompanhado de sons meio confusos. Finalmente,
uma
noite, durante “o momento da interferência”,
apareceu na tela um “ser
intergaláctico”, que se dizia estacionado numa
espaçonave próxima da
Terra. Após uma longa “mensagem” aos terráqueos,
surpreendentemente,
as imagens foram para os estúdios do Sumaré, mostrando
o ator-diretor
Henrique Martins sentado numa cadeira e revelando, irônico,
de olhos fixos
na câmera: “Vocês acabaram de assistir ao
primeiro capítulo de Lever no
Espaço”. A novelinha havia sido planejada em total
segredo, inclusive
até para o próprio Corte Real, que confessou sua
surpresa no ar, durante o
telejornal.
Essa era a TV Tupi nos anos 50, a queridinha de São Paulo.
“Você aí da
poltrona”, como diria o Didi, de Aragão, tem alguma
dúvida de que ela era
mesmo brilhante, ainda que só em preto e branco?
Gustavo Mazzola
Mazzola@sigmant.com.br