Livro
"Largo São João" lembra Avaré
dos anos 50 e 60
O livro de crônicas Largo São João,
lançado pelo jornalista Gustavo Osmar Mazzola, reúne
relatos de lugares, acontecimentos e pessoas de Avaré
(SP) com quem o autor conviveu dos anos de 58 a 61, durante
o tempo em que residiu naquela cidade.
São lembranças de sua passagem pelos bancos
escolares do Instituto de Educação Cel. João
Cruz, pela Rádio Avaré (quando ainda ZYS-3,
onde foi sonoplasta e locutor), pelo Tiro de Guerra 7 (como
reservista da turma do centenário), pelos bares famosos
do seu tempo (Chuca, Itapoan e Nelo).
Em Avaré viveu o romantismo adolescente dos sábados
no Largo São João, com as meninas passeando
de braços dados pelo jardim, sob os olhares atentos
da rapaziada à beira da calçada, quando o
programa das noites de sábado começava no
Cine Santa Cruz e podia terminar numa gostosa brincadeira
dançante nos salões do Centro Avareense.
Numa segunda parte, o foco é Campinas, cidade onde
mora há mais de quarenta e cinco anos: passagem pelo
"Culto à Ciência", pelo Correio Popular
(como repórter e editor). Depois pela Pucc, Bosch,
Forum e TV Princesa, onde apresentou programas sobre automobilismo.
Gustavo Osmar Mazzola
Gustavo Osmar Mazzola é jornalista,
dedicando-se atualmente à crônica
e a ensaios literários, em que rememora histórias
do dia a dia, vividas na
sua adolescência, como estudante e, já adulto,
como profissional de
comunicações.
Com o escritor campineiro Luiz Carlos Ribeiro Borges,
é co-autor da obra Centro de Ciências, Letras
e Artes, ano 101, que comemorou o centenário da entidade.
No passado, foi repórter, redator e editor na imprensa
diária, em Campinas, e responsável por veículos
de comunicação de empresas, entidades de classe
e associações de serviços à
comunidade.
Na mídia eletrônica, atuou como apresentador
de programas radiofônicos e, mais recentemente, produziu
e apresentou, em Campinas, programas de televisão
especializados em jornalismo automotivo.
Inclui em seu currículo a criação publicitária,
na área de redação, e desenvolvimento
de roteiros para comunicação radiofônica
e televisiva.
O texto a seguir está entre as crônicas que
compõem "Largo São João",
especialmente na parte em que estão os trabalhos
relativos à fase em Campinas.
Os amargos
prazeres do ócio
Aposentado! A palavra cai pesada na cabeça
daquele pacato cidadão que acaba de deixar a ativa
e, de repente, entra para um mundo novo, de paz, contemplação,
sem relógios ou compromissos.
Em geral, está ainda no melhor vigor da sua condição
física. Acabou de pendurar as chuteiras na empresa,
onde trabalhou durante parte de sua vida, mas, por qualquer
razão não bem explicada, não se deu
conta, inteiramente, de toda a extensão da tragédia.
A ficha ainda está lá em cima e, com altivez,
vai administrando essa nova fase da vida.
É, ainda, um novo aposentado: figura ímpar
na paisagem urbana, facilmente reconhecido pelas ruas do
nosso bairro, no supermercado, correndo na Lagoa, assistindo
a um show na Praça da Paz, ou, simplesmente, aguardando
sua vez numa exuberante fila do banco, no meio da tarde.
Seu melhor perfil é assim: tênis (desses bem
modernos, com amortecedores e tal), meia branca, bermudão
(às vezes, um short apertadinho), camisão
por cima bem colorido (que é para dar aquele ar de
completa descontração). A pele queimada do
sol (que vidão, hein?), uma expressão enérgica,
mas de total tranqüilidade com o seu dia a dia. Nada
de brincos, cabelos compridos, rabos de cavalo, costeletas,
bigodinho, porque é uma pessoa de respeito e de maneira
nenhuma pode ser confundido como mais uma bicha velha na
cidade.
Acorda cedo - na mesma hora do tempo do serviço -,
anda pelas ruas um pouco apressado, como se estivesse sempre
fazendo uma caminhada. Nas mãos, no máximo,
uma pequena sacolinha de supermercado (ainda no ouvido,
ao sair de casa, aquele "já que..." da
patroa. Bem vocês sabem como é, não?).
No banco, ele nunca pega a fila dos "preferenciais".
Até faz cara feia se alguém o lembra que pode
passar na frente porque já tem 60 anos. Pelo contrário,
faz questão de esperar a sua vez e, discretamente,
ainda torce para ter bastante gente na fila: mais tempo
para gozar daquele convívio com as pessoas, um contato
que se tornou, agora, importante na sua vida.
A parte do jornal que ele primeiro procura é, sem
dúvida, a dos anúncios fúnebres. "Será
que é o Seu João, da Ferramentaria? Coitado,
tava tão magrinho!" Não perde por nada
um bom velório, vai, inclusive, às missas
de Sétimo Dia de todos da turma que vão deixando
esta para outra melhor. Quando não vê alguém
dos velhos companheiros por muito tempo, com algum cuidado,
telefona para a casa dele. "Só para conferir!"
Remédios. Ele vai muito a farmácias. Sabe
de todas as promoções, descontos, novos remédios
no mercado. Qualquer dorzinha de lado, já marca logo
o médico, pois "é preciso usar esse dinheirão
que vai por mês pro convênio".
E quando encontra na cidade outro igual a ele! Aí,
o bicho pega. É aquela festa. "Como vai, como
não vai, e o pessoal? Vamos tomar um chope?"
Mas se o encontro é com um simples aposentado, como
aqueles simpáticos velhinhos que nos olham pela varanda,
quando passamos em frente de suas casas, ou entretidos numa
boa conversa, nos bancos de algum jardim da cidade, o nosso
novo aposentado assume logo o ar superior de "lá
na Seção, a gente tem lembrado muito do senhor!",
num jeitão de falar como se ainda estivesse na ativa.
Aliás, seu desligamento da empresa é, às
vezes, meio trágico. Tenho um amigo que, embora ainda
não esteja aposentado, conta sempre o que lhe aconteceu
no seu último dia no jornal onde trabalhava: depois
das tradicionais despedidas, abraços, volte sempre,
isto e aquilo, passou pela portinhola da saída da
redação, pegou o longo corredor à frente,
desceu pelo elevador, chegou na rua e, de repente, lembrou-se
que precisava de algo de um dos ex lá de cima. Voltou,
subiu até o 5º andar, abriu a portinhola e,
ao olhar para todos ali na sala, sentiu algo estranho. Havia
uma situação diferente da que deixara minutos
antes. Aqueles seus colegas, amigos confidentes, companheiros
de tantas e boas, já não eram mais os mesmos.
Um abismo os separava. Eles o olhavam, agora, como uma ilustre
visita, digna de toda consideração, atenção...
mas aquela química que os unia durante tantos anos
não existia mais. A bem da verdade, eram outras pessoas
à sua frente, e ele, não mais merecedor da
mais ínfima confidência. Num gesto rápido,
virou-se para saída, e nunca mais voltou ali.
Aliás, essa é sua grande mágoa. A exclusão
de todos os contextos, de todas as responsabilidades, dos
dias suados de batente - mas revigorantes -, de tudo o que
lhe assegurava a certeza de que vivia.
Aí bate aquela danada nostalgia. Principalmente,
quando volta para casa, no fim da tarde: o beijo na mulherzinha,
seu lugar no sofá da sala,
o jantar quentinho, a novela das nove e depois... Cama,
que é o melhor mesmo que lhe resta fazer. É
quando aquela ficha cai de vez.
Bem, chega desse papo de aposentado, contemplação,
banco de jardim, que isso acaba pondo até a gente
pra baixo. Melhor mesmo é eu calçar logo o
meu tênis importado, vestir o short, a camisa colorida
e dar uma andada por aí, que hoje eu tenho uma bela
conta pra pagar. E tem que ser no banco lá do centro,
que tem uma fila daquelas!