Escola de valores


Autor: Padre Luis Carlos F. Magalhães



Neste mês de fevereiro, com o início das aulas, em tempos de Big Brother, vale a pena "dar uma espiadinha" bem dentro das nossas escolas para ver como anda a educação. Lá dentro acontece muita coisa que os pais nem sempre ficam sabendo.
Por exemplo: você conhece o professor-jardineiro? Ele fica ao lado da criança a observar o que a plantinha dele precisa. Ele não sabe tudo e vê a criança como quem não sabe nada. Ele, o professor-jardineiro, cuida da plantinha com carinho e dá o necessário para que desabroche e floresça: água, luz, calor, poda, adubo. Não é o jardineiro quem ordena à flor: "você vai ser um girassol, uma rosa ou uma margarida". Ela, a criança, já traz no gérmen a sua forma ideal. O professor-jardineiro não força a planta a crescer, puxando para o alto, para fora, mas tem paciência para ajudar tão somente a criar ramas.
Você conhece o professor-oleiro? Ele vê a criança como um barro inerte e sem vida, barro que ele pode modelar a seu gosto, idéia e criatividade. Às vezes, precisa conseguir o que quer com batidas e pancadas.
Você conhece o professor-trator? Ele vai sempre em frente com sua máquina de fazer aluno passar no vestibular. Seleciona as disciplinas que devem ficar na cabeça do "aluno" e empurra com a pá aqueles temas que ajudam no crescimento pessoal, como música, teatro, artes plásticas, filosofia, espiritualidade... Vai tudo para o lixão do esquecimento ou o terreno baldio da superficialidade.
Interssante isso, não é? Você entendeu a parábola? É de um autor desconhecido, mas nos ensina que, para escolher a escola de seus filhos, é preciso saber que modelo de ensino e de professor vocês, pais, querem para seus filhos. Devem saber também quais disciplinas fazem parte do projeto educacional da escola. É preciso descobrir se os professores são jardineiro, oleiro ou trator; e se a escola respeita as tendências, gostos, inclinações, aptidões e carismas das crianças que nela vão estudar.
É preciso não esquecer, antes de tudo, que as crianças são seres humanos de alma, corpo, espírito, mente, sentimento, emoções. Não são "lojas de conveniência", depósitos de conhecimentos ou bancos de dados. Afinal, qual o objetivo da escola: transmitir conhecimentos ou ensinar a "ser" humano? Qual o lugar que ocupam as experiências de solidariedade, tolerância, harmonia, ajuda mútua, respeito às diferenças e integração do ser?
Há escolas em que as artes têm um papel fundamental. Os alunos aprendem a moldar o barro, esculpir, pintar, tocar instrumentos musicais, fazer trabalhos de marcenaria, cuidar da terra, da mata ciliar, das nescentes.
Há escolas também que estimulam os alunos a fazer vídeos, montar peças de teatro, criar historinhas, a partir das leituras que fazem ou da observação da realidade em que vivem.
Os pais são os responsáveis pela educação dos filhos; não devem tercerizar a educação, mas envolver-se com a escola, a comunidade, os professores e com os outros pais. A consciência de participação deve levar os pais a superarem o egoísmo que os leva a resolver apenas os seus problemas individuais, pessoais e familiares, esquecendo-se do grupo, da comunidade, dos outros pais.
Os pais precisam se unir na busca constante de uma escola e de uma educação que favoreça a descoberta e a vivência dos valores humanos. Uma escola que estimula os alunos a solucionar conflitos, desenvolver a comunicação, priorizar a cooperação e a conduta justa e honesta, custe o que custar. Uma escola e uma educação que incentivem projetos criativos, inspirem hábitos de analisar criticamente a realidade e avaliar as situações de injustiça. Uma escola que dê condições às crianças de se prepararem para a vida, aprendendo a tomar decisões corretas, a buscar o bem dos outros e não apenas os próprios e, finalmente, a desenvolver ações voluntárias.
Será que estou sonhando muito? Será este ideal tão distante da nossa realidade? Será possível realizar projeto semelhante? Os israelitas chegaram à Terra Prometida porque passaram agruras no deserto, venceram batalhas, superaram diferenças e conflitos. A isto chamamos de Páscoa, "passagem". Que tal? Vamos fazer a Páscoa?

Côn. Luiz Carlos F. Magalhães é jornalista e
pároco da Igreja Cristo Rei.

O jornalista Clovis Cordeiro faz

"A Defesa do Bairro".

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