O Amanhecer
Amanhece...
Desperto abrindo minhas janelas. Cortinas se abrem vagarosamente...
A embriaguez do último sono ainda parece querer me
dominar.
Fico imóvel.
Ao fundo, as primeiras notas se mesclam, ao som que parece
sumir longe...
A melodia dos poucos pássaros que ainda resistem
e por aqui passeiam, invade e caprichosamente penetra em
minha alma.
Totalmente entregue, me desprendo do leito tão acolhedor.
Quero abraçar o amanhecer que me chama. Quero dar
boas vindas para o dia que está chegando.
Meus passos me levam agora para uma grande tela. A janela
é aberta, as cortinas também.
E agora já não são mais as cortinas
sonolentas de meus olhos.
Lentamente, estes filmam o horizonte que se perde no infinito
e se mescla com o céu, que lá, parece salpicado
por uma névoa incerta...
A tela de DEUS e a dos homens aparece diante de mim.
Tão definida e ao mesmo tempo tão amalgamada...
Vejo milhares de telhados, colocados caprichosamente sobre
o relevo de nossas campinas.
Penso que neles, muitos ainda estão adormecidos.
Terminando seus últimos minutos de sono e de sonhos...
Ou quem sabe, simplesmente apenas começando...
A mesma tela que outrora, uns quinhentos janeiros quem sabe,
era tão diferente...
Talvez mais definida pelo verde dos campos e o azul celestial...
Ouço uma música um pouco mais intensa, que
me traz de volta pra realidade.
A orquestra ainda está em aquecimento, com instrumentos
diversos, num vai e vem,
que com o passar dos minutos vai intensificando cada vez
mais...
Ao longe, a perder de vista, um instrumento que é
o maior e mais intenso,
E que minha audição é incapaz de alcançar,
decola rasgando os céus. Certamente levando tantos
outros sonhos...
A vida pulsa. A cidade acorda para o sonho real.
Meus olhos continuam apreciando a grande tela: a de DEUS
e a dos homens.
Homens de todos os lugares, de todos os brasis, de tantos
outros continentes...
A brisa fresca de verão ainda passeia, enquanto os
galhos das árvores parecem reverenciar o dia que
chega. E os tantos telhados perdidos ao longe, acomodam
os nativos e os imigrantes, sonhadores e desbravadores.
Dos dias cinzentos, tirei todas as cores para pintar meus
sonhos, para pintar minha tela.
Eu estava lá, mas agora estou aqui.
Em contemplação, peço pelas crianças
de todas as idades. Pela Campinas querida, que generosamente
abraça e acalenta a cada amanhecer...
Que bom sonhar, que bom sempre acreditar, que bom ter fé!
O amanhecer traz de presente, a chance de sempre renovar
e conquistar.
Traz também, o privilégio de não só
contemplar, mas também compor e compartilhar a grande
tela: O AMANHECER.
Lúcia de Fátima Marques Peres