Memórias do Castelo... Os pioneiros do bairro


Quem mora em Campinas há muitas décadas sente na pele a perda da qualidade de vida da cidade. O crescimento desordenado tem sido característico das grandes metrópoles. É o caso de Sônia Aparecida Antonietto de Souza, que faz um relato simples e objetivo dos muitos anos que vive na nossa região. Sônia, que mora no Jardim Chapadão há 52 anos, conta que veio para cá com toda a família em setembro de 1955, com 6 anos de idade.
“Quando viemos morar no Jardim Chapadão, não havia luz, água, esgoto e asfalto. Meu pai, senhor José, fez uma ligação de água da rua 14 Bis, da casa do senhor Dominguinho, para chegar na nossa casa, na rua Bento da Silva Leite, 810, que era a antiga rua H. Onde hoje é a rua Cônego Manuel Garcia, era o fundo do quintal da nossa casa e daí para a frente era eucalipto, morros de cupim que a gente ia com minha mãe buscar para dar aos pintinhos que ela criava no quintal.
No quintal da casa havia um galinheiro e um local fechado com tábuas, para proteger as galinhas, onde eu brincava que era professora. Escrevia com giz nas tábuas e fingia que as galinhas e pintinhos eram alunos. Mas não virei professora não, fui ser contadora, estudando no Colégio São Luiz, hoje Pio XII.
Naquela época não havia luz e meu pai levava nos ombros uma bateria de carro ao posto de gasolina no Bonfim para carregar para que quando a gente saia e voltava à noite pudesse acender umas lâmpadas bem fracas. Minha mãe passava roupa com ferro esquentado a carvão.
No local que funciona atualmente a Escola Marechal Malet era só mato, onde a gente vinha para pegar peixinhos e levar para casa, mas eles sempre morriam. Ali na esquina da avenida João Erbolato com Cônego Manuel Garcia era o fim de tudo.
O Clube do Bonfim ainda não era no Chapadão e aquele local era o chamado “Buraco ou Boca da Onça”.
Todo mundo tinha medo de passar pelo local, pois era abandonado. Uma vez foi encontrada uma criança recém-nascida morta.
Em 1967, eu trabalhava na Lix da Cunha, que funcionava onde há os prédios em frente a Escola de Cadetes. O escritório ficava onde hoje existe o Condomínio Venda Grande e, durante o mês de junho, quando escurece mais cedo, a gente tinha medo de passar da Lix para a João Erbolato, pois eram só pés de mamonas. A gente dava a volta pelo Castelo para chegar em casa na Bento da Silva Leite.
Quando me casei, em 1969, vim morar na Herculano Couto, onde só existia a casa da esquina com a Bento da Silva Leite, que era de ciganos, a casa vizinha à minha que era do padeiro. Nos terrenos baldios os ciganos faziam acampamento, e quanto eles tinham festas de casamento, usavam a água da minha casa, porém nunca nos incomodaram. Nesta rua também morava um senhor conhecido por Zé Copeiro que a mãe comprava leite dele.
Nossos vizinhos nessa época, na Bento da Silva Leite eram o senhor Armando e dona Laura, pais do Ernesto e do Jorge, que moravam na casa bem em frente à praça Noel Rosa (atrás da Telesp).
Naquela tempo não havia balão. A rua 14 Bis vinha direto do Castelo em direção à Pedreira do Chapadão.
Em outubro de 1968, recebemos novos vizinhos. Mudaram-se para a rua o senhor Pedro, dona Tereza e os filhos Renata e Pedrinho.
Lembro que na Bento da Silva Leite também passavam boiadas que eram levadas para o matadouro onde havia o Cortume Cantúsio. Várias vezes a gente saia correndo para dentro de casa morrendo de medo.
Estas eram nossas preocupações num bairro tipicamente rural, longe de tudo e que hoje sofreu grandes transformações com a modernidade”, lembra a moradora Sônia”.

 

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