Lembranças de uma época de inocência e aventura


 

 

Numa época em que a riqueza do meio ambiente guardava tesouros, quase intocáveis, um grupo de meninos, hoje cinqüentões, brincava e se aventurava no Jardim Chapadão. As fazendas Santa Elisa e Chapadão eram o palco de inocência e alegria. A região oferecia brincadeiras em verdadeiras piscinas, formadas por lagoas e nascentes, berço do ribeirão Quilombo. E para lá o grupo corria, no ‘primeirinho’, ‘segundinho’ e no ‘tancão’, como eram conhecidos os lagos naturais, entre as ruas Cônego Manoel Garcia, Monte Líbano e Herculano Couto. Era uma farra só.
Também é verdade que muitos se machucavam. Os meninos, empolgados pelas brincadeiras nas águas, não percebiam a ação dos menos desavisados, que já começavam a jogar lixo em lugar errado. E quando algum acidente ocorria, as mães ralhavam pela desobediência aos pedidos de não brincar nos lagos. Eram elas, a Janda da cocada, a Alaide do “seo” Pedrinho, a dona Elvira, dona Ordália... Todas mulheres de trabalhadores, que na metade do século passado chegaram ao Chapadão. Os maridos eram feirantes, vidraceiros, cozinheiros e açougueiros, entre outros pequenos comerciantes. Naquela época, “seo” Paulino entregava o leite na carrocinha. Uma lembrança bucólica.
Os meninos, entre os 10 e 15 anos de idade, também criavam pequenos incidentes. Acontece que, na Fazenda Chapadão, o capataz, o Tuca, aterrorizava só pelo fato de não ter uma das mãos. Mas eles arriscavam. Os mais velhos incitavam os menores, e a todos era imposta uma tarefa: atravessar a cerca, ganhar o pomar , “roubar” as frutas e voltar sem ser percebido. No grupo, os irmãos Dadá, João e Marcão, o Lobão e o Anísio, o Clovinho e o Donaldo, o Urtigão, o Edson, o Washington, o Adão, o Carlinhos... Quando alguém era pego, o capataz levava até à mãe e aí a coisa era brava. Misturado a tudo isso, as tradicionais brincadeiras de rua: pipas, carrinhos de rolimã, bolinhas de gude. Lembranças de uma época saudável.
Mas os meninos começaram a crescer... E no balão do Castelo ficava o Etna Pizzaria, um deleite para a população mais abastada da época. Mas, os pré-adolescentes não conseguiam pagar pelas pizzas. Os proprietários, italianos bravos, não davam brechas. Mas como existe sempre um bom coração, aparecia o pizzaiolo Orlando. Ele se sensibilizava e ajudava como podia: entregava as sobras das mesas, que na época ninguém se atrevia a levar embora. Para pegar os pedaços, o grupo se revezava e a aventura era desafiar a chefia. Eles precisavam entrar no restaurante e seguir em direção ao banheiro, para encontrar a recompensa no final do corredor. Quem conseguia chegar até lá comia uns pedaços. Uma aventura sem maldade.
Essas lembranças e recordações são contadas até hoje pelo grupo,que ainda se encontra pelo Chapadão, embora cada um tenha se estabelecido em pontos diferentes da cidade. Mas lá, no final da avenida João Erbolato, o coração generoso do pizzaiolo o transformou em um proprietário. Há anos ele faz o que melhor soube fazer: pizza e amigos. A pizza do Orlando tem sabor diferente, principalmente para o grupo de meninos de ontem. Elas guardam reminiscências. Quando alguém reconta as histórias, Orlando simplesmente ouve e sorri. Demonstra em seu silêncio a certeza de ter ajudado como podia.
Ele ajudou com o coração.

Lu Dressano é jornalista e escreve às quartas e quintas-feiras no jornal Correio Popular, nas áreas de responsabilidade social e ambiental.

 

O jornalista Clovis Cordeiro faz

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